segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Neutralidade

A maior parte das pessoas em geral não apenas não estão dispostas a se esforçar para colocar as paixões de lado por alguns instantes para analisar uma questão importante sob a ótica mais neutra possível. Elas também não vêm valor pessoal algum nessa tarefa. É impressionante como alguém pode se recusar a aceitar o simples fato de que uma posição mais moderada, quando aplicável, possa gerar mais benefícios para si. Em um mundo em profunda aceleração, onde o conjunto de coisas de que é possível ter certeza parece estar ficando cada vez mais restrito, é difícil entender esse tipo de distorção.

É também comum que se lance enorme desconfiança e desaprovação, se não evidente julgamento de caráter, a qualquer pessoa que, "inocentemente", deixe transparecer que o está fazendo. Especialmente se essa pessoa tem grandes motivos para envolvimento emocional com um certo tema.

É curioso que até as pessoas não envolvidas emocionalmente com um tema polêmico costumam achar que elas poderiam opinar claramente sobre ele caso estivessem na mesma situação. Portanto, na ótica de boa parte dessas pessoas, a pena ideal para determinado crime, a ser definida no código penal, seria aproximadamente aquela que seria defendida por pessoas que já foram diretamente vitimadas por esse tipo de crime ou por seus familiares, com a eventual exceção das preferências mais radicais (pessoas que desejassem mutilar severamente os criminosos, por exemplo). Em outro exemplo, para essas pessoas, decisões sobre a política nacional de doações de órgãos deveriam ser tomadas fundamentalmente por pessoas nas filas de espera de transplantes ou seus familiares. Não é que se pretenda necessariamente dar poder exclusivo de decisão às pessoas diretamente envolvidas, mas que ao menos se queira dar a essas pessoas um poder de decisão completamente desproporcional em relação às partes não envolvidas que agregam óticas e conhecimentos diferentes à discussão.

Boa parte dessas pessoas parece confundir neutralidade (ou, mais precisamente, tentativa de, ou, de um modo mais geral, objetividade) com indiferença. Estou comentando esse caso por muito frequentemente viver situações como essas, ainda que na maior parte das vezes apenas implicitamente, e por ver tantos exemplos nos mais variados contextos.

Isso aconteceu, por exemplo, na recepção pública à notícia de avanços na pesquisa sobre autismo realizada por cientistas brasileiros na California, que trabalham com células tronco. A notícia, veiculada com a péssima qualidade de sempre da imprensa brasileira (uma versão mais popularesca de alguém que leu outra notícia de alguém que leu outra notícia de alguém que leu o abstract do paper original e não entendeu nada), foi recebida com um misto de euforia (por parte das pessoas que lidam com autistas no dia a dia) e de puro ufanismo tosco, pelos demais. Quantos toques, diretos e indiretos, não recebi, de pessoas que sabem apenas sobre o autismo da minha filha, não sabendo absolutamente nada sobre a condição, sem ter a menor idéia do que seja método científico, querendo me informar da boa nova e, aparentemente, querendo me colocar em uma posição quase obrigatória de (vã?) esperança! Felizmente, a maior parte dessas pessoas não pôde testemunhar a minha reação cética e ponderada.

Acima de tudo, é revoltante perceber a posição da maioria das pessoas mais próximaas de que o autismo é uma condição assustadora demais, que não é possível conviver em felicidade com ela, como se fosse uma maldição que deveria nos fazer refletir sobre um possível castigo divino e sobre a necessidade de orar por algum milagre que instaure a "normalidade" em nossas vidas.