Moramos em Belo Horizonte. Fui aconselhada pelo psiquiatra da minha filha, Dr. Walter Camargos Junior, a matriculá-la em uma UMEI (Unidade Municipal de Educação Infantil) e solicitar uma auxiliar, para que ela não sofra bullying e, também, para que não fique excluída das atividades. A prefeitura nos designou (sim, porque aqui não nos é dado o direito de buscar uma vaga onde quisermos) uma unidade nova, que parece muito boa, mas que fica em uma área de grande risco social na cidade (“barra pesada”). Temos medo de entrar e sair da região.
Minha filha não fala, ainda não foi desfraldada, não se comunica por gestos, não tem noção de perigo/propriedade/privacidade, nos usa como escada ou ferramenta, sua forma de comunicação é nos levar onde quer ou chorar e temos que "advinhar" quais são suas necessidades (quase sempre as antecipamos, para que não haja estresse), costuma ter ecolalia tardia ou imediata, como não consegue manter o foco tem dificuldade para se alimentar sozinha (ela se distrai e deixa o alimento de lado) ou realizar qualquer outra atividade em que ela não tenha um interesse profundo e quase não atende a comandos.
Ela é bastante carinhosa com a família e até beija e abraça crianças estranhas (o que me causa um certo constrangimento), não se auto agride e suas crises de birra são passageiras, bastando mudar de ambiente ou afastar o agente desencadeador.
Soube através da coordenadora pedagógica da escola que ela irá frequentar que não é praxe da prefeitura liberar “automaticamente” a auxiliar para autistas (o seria apenas para crianças com dificuldade de locomoção) e temo que a situação chegue ao extremo de nós (eu e o pai) termos que procurar os órgãos competentes (i.e., a justiça) para que ela possa ter essa facilitadora, como preconiza o MEC.
Não quero que a minha filha seja apenas um mascote ou um empecilho ao avanço das outras crianças. Não a estou colocando na escola para ter mais tempo para mim. Quero que ela seja inserida em um núcleo, além do familiar, e que de algum modo faça parte da sociedade, seja alfabetizada e consiga ter uma vida mais próxima da realidade que for possível e algum nível de autonomia.
No momento, estamos priorizando o tratamento seriado de qualidade, o que torna inviável mantê-la em uma boa escola particular e ainda custear uma facilitadora.
O choque cultural também me preocupa. Ainda que minha filha não fosse autista, ela ainda poderia ficar deslocada na escola que irá frequentar, já que a realidade das crianças com quem irá socializar é bem diversa da nossa.
Tememos que ela assimile os piores aspectos do ambiente. Recentemente, ela aprendeu a rosnar, com o irmãzinho de 9 meses que está começando a imitar os sons dos bichos e o da vez é o leão.
Não sabemos nem ao certo o que pensar. No mínimo, estamos pensando em não mandá-la para a escola enquanto a facilitadora não for garantida.